Esses dias, assim do nada eu tive uma idéia nada original. Mas fiquei viajando nela e desenvolvi diálogos e tudo mais. É simples, um pequeno empresário crente morre e vai para o inferno. A história é basicamente um diálogo entre ele e o diabo e começa assim.
Atônito por encontrar-se em um local tão rochoso e pouco iluminado, Horácio não queria acreditar que havia parado no inferno.
- Que ao menos seja o purgatório! Exclamou, Assim terei chance de ver o Senhor e seu Filho depois de muito sacrifício.
-Esquece! Falou uma voz grave que Horácio não foi capaz de reconhecer o autor. A voz continuou. Horácio Teixeira, 49 anos oriundo de Porto Alegre, possui um restaurante denominado de “Buffet” no centro antigo da cidade. Adultera a sua balança em 300 gramas a mais e reutiliza alimentos mesmo depois de passado o prazo.
O Diabo interrompe seu comentário solidariamente.
-Corrija-me se estiver equivocado, por favor.
Horácio com seu orgulho ferido pergunta.
-Mas o que está havendo?
-Calma, o Diabo estende a mão para o crente indicando pausa , Você tem 2 filhos e uma esposa. Um dos filhos trabalha como caixa no seu restaurante e você o obriga a ficar lá, trabalhando enquanto ele poderia estar evoluindo como ser humano. Ao invés disso, você o força a praticar o roubo cotidiano que você aplica nos clientes. O outro é pequeno demais para essas coisas. Sorte tem ele, é jovem demais para entender as tolices que ouve na igreja.
Horácio suando frio, numa atitude vigarista, procura defender-se.
-Mas senhor, eu admito que sou pecador. É por esta razão que vou à igreja, para expiar meus pecados. A carne é fraca senhor, faço aquilo no meu restaurante, pois o mundo é injusto. Sou de origem pobre, venho do interior do estado e...
-E resolveu retribuir com mais injustiça e individualismo!
Horácio calou-se, houve uns segundos de silêncio em que o Diabo, agora próximo do penitente, conhecendo os humanos, esperou que Horácio viesse com mais desculpas.
-Não entendo, disse demonstrando uma legítima desorientação, eu admito meus pecados, reconheço minhas fraquezas, porém, não seria o caso de me levar ao purgatório. Lá teria oportunidade de me livrar dessa terrível pena e demonstrar meu amor a Cristo.
-Não haverá purgatório porque o céu não existe!
-Mas como! Como!?!?! Então o senhor quer dizer que Deus não existe?
-Existe, mas se foi. Disse friamente ao mesmo tempo em que escondia um sorriso fruto de seu orgulho e segundo ele mesmo “pertinência”. Desde que criou a humanidade, ele deu chances a todos vocês, mas chegou um momento em que ele não suportou mais. Pense bem, um ser que pode criar vida e coisas inimagináveis porque haveria de se preocupar com vocês? Vocês deturparam toda a noção saudável de religião. Tomaram Sua palavra para justificar os crimes mais terríveis que se podem encontrar nos registros históricos de seu planeta. Confundiram tudo! Ao invés de se preocupar com a verdadeira vida após a morte, tomaram as rezas e as cerimônias para lavarem suas consciências sujas e cheias de más intenções.
-Como, verdadeira vida após a morte?
-O que vocês chamam de legado, ordinário! Essa é a vida que vale a pena ter após a morte. Permanecer na memória das pessoas como um indivíduo bem intencionado, justo, prestativo e solidário. Mas vocês fizeram o contrário. Botaram o indivíduo no topo de tudo e o lucro como palavra de ordem. Enfim, abandonaram o bom senso e agora VOCÊ e muitos outros pagam por isso.
O Diabo tomou fôlego e continuou.
-Deus me deixou aqui para que vocês se fodam, ele é amor, mas todos sabem que isso não dura para sempre quando não existe reciprocidade. Vocês colam adesivos em carros e janelas com dizeres “eu confio em Deus” e coisas similares MAS ERA JUSTAMENTE O CONTRÁRIO! Para ter a tão desejada vida eterna no paraíso Deus confiou em vocês! Não há vida após a morte. Só o sofrimento!
Já admitindo sua condição de condenado, Horácio perguntou dessa vez com sinceridade e propósitos “legítimos”.
-Mas será possível eu aparecer em sonho ao menos para avisá-los do mal.
-Avisar a quem? Perguntou o Diabo sem que Horácio percebesse que se tratava de uma pegadinha.
-Minha família
AH!! Viu?!?!?! Por acaso Jesus não se sacrificou para pagar os pecados de toda a humanidade? Porque você não faz o mesmo? Vamos!
Horácio estava derrotado.
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