Na sala de aula, muita pouca coisa chama sua atenção. Uma que outra colega bonita, a professora de história que é "guria" e bem gostosinha. Nada mais.
Os assuntos ali trabalhados não fazem nenhum sentido para ele. Aquela obrigação de acordar cedo e ir à escola depois de um café da manhã miserável só faz os dias ficarem mais enfadonhos.
"Hoje eu não almocei. Não! pera aí, eu tomei um refri"
Esse jovem de 14 é divertido, irônico. Consegue fazer piada da vida, o que já é, na minha opinião, uma grande demonstração de inteligência e crítica. Faz letra de funk espontaneamente ironizando tudo o que vê.
Mas isso não é valorizado na sala de aula. Tampouco o é no mercado de trabalho...
Portanto, ao mesmo tempo em que vê seu talento desvalorizado pela estrutura educativa e seus agentes este jovem se volta para outro segmento de seu cotidiano.
Radioso e iluminado, seus olhos se inundam de luz e interesse quando vê outros jovens de 17 anos, com tacos de baseball na mão e um 38 escondido em algum lugar da cintura. Ele estuda, da janela de sua sala de aula, todo os movimentos destes outros jovens. Caminhando pela rua, cheios de uma falsa sensação de triunfo na vida (muito curta por sinal).
Fiscal do tráfico.
Esse é o nome bonito da profissão que chama sua atenção. Ali ele não precisa ir à escola, é bem remunerado, brilha no baile, é respeitado e ainda por cima, depois de um tempo anda armado.
No seu universo, essas são as espectativas de carreira profissional. Não o faz por maldade, vagabundagem ou "porque é negro"...Não... É o que tem. São as possibilidades que lhe são oferecidas neste canto de Porto Alegre onde a vida é embrutecida pelo estado de direito torcido.
Não se pode acusar essa gente toda de violenta, elas na verdade só respondem à violência que foi colocada diante do seus olhos desde jovem.
Escolas más estruturadas e sucateadas é violência.
Posto de saúde pequeno e com poucos funcionários é violência.
Desigualdade social é violência.
Esse guri, só está fazendo o que lhe é possível para sobreviver.
Só isso.
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