Nunca me senti tão mal com essa tal de sociedade. Descobri que
através de gestos singelos ou comentários supostamente irônicos o mundo vem
jogando para debaixo do tapete um dos elementos que o diferencia dos demais
animais: a cooperação desapegada dos benefícios materiais ou como alguns chamam, a solidariedade.
Na Europa é muito comum
frequentar restaurantes ou cafeterias com letreiros e cartazes informando que a
cada euro a mais pago pela refeição o cliente, supostamente, está combatendo a
fome na África. A adesão dos cidadãos do primeiro mundo a essas campanhas
aparentemente nos transmite uma noção de ideais elevados daqueles povos, porém,
esconde por trás o desinteresse de todos em resolver seriamente o problema que
eles geraram a centenas de anos atrás. Aquele euro a mais pelo “petit noir”
serve para que o mesmo cidadão possa dormir tranquilo dizendo para si mesmo que
fez a sua parte e que nada mais lhe compete.
No Brasil a coisa tem outra cara.
Aqui nos comportamos de acordo com o dizer “tirar o seu da reta”. Viramos
especialistas em “tirar o meu da reta”. Um acidente de carro? Chama o SAMU e “tira
o teu da reta”. Incidente de avião? Deixa o cara decolar, se der merda foi
decisão dele e tu “tirou o teu da reta”. Meus funcionários não podem vir
trabalhar por causa da greve dos ônibus? Que se virem!! Vou descontar as faltas
porque não tenho nada a ver com isso e “tiro o meu da reta”.
O mundo pequeno-burguês está construindo
uma nova corrente universal de “foda-se para tudo”.
Talvez as coisas mudem, mas não
sei ainda quando. 2014 promete um ano de muitos protestos pelo Brasil e isso é
alentador. No entanto, o fato dos protestos serem liderados em parte por anarquistas
não me trás bons prognósticos. Porque? Pois como disse Lenin “o anarquista é um
pequeno-burguês de cabeça para baixo”.
Oxalá as coisas tomem uma direção
interessante e alentadora.
